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Cacau Revolucionário
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Cacau Revolucionário

Um projeto revolucionário no interior de Rondônia promete ajudar a impulsionar a produção sustentável do cacau no estado. Com o uso de tecnologias de melhoramento genético, sistemas de plantio agroflorestal, produção de biofertilizantes orgânicos e manejos integrados à produção, o projeto já começou a apresentar excelentes resultados, motivando seus idealizadores a investir na construção da primeira fábrica de chocolates finos artesanais do estado de Rondônia.

O projeto batizado de “A Fazendinha Agroecológica” nasceu a partir de um ideal do técnico em agropecuária Antonio Deusemínio de Almeida. Funcionário público da Ceplac (Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira), com mais de três décadas no serviço público, Deusemínio tinha o sonho de construir uma propriedade totalmente sustentável.

Em 2001, ele iniciou o projeto agroecológico. Hoje, tudo é desenvolvido com foco na sustentabilidade. Os fertilizantes são orgânicos e envolvem a produção de compostagem, feita com sobras de material orgânico (cascas, paus, folhas em decomposição).

Propriedade

Voltada para produção de cacaueiros, a “Fazendinha Agroecológica” possui um viveiro com mais de 7 mil mudas de pés de cacau, que serão posteriormente plantadas nos “berços”, que são preparados utilizando a terra e os materiais da compostagem. O cultivo dos cacaueiros jovens é realizado dentro de sistemas agroflorestais e envolve o sombreamento provisório com bananeiras e feijões guandu.

Quando os cacaueiros atingem um tamanho adequado, são incorporados com espécies arbóreas da região, como ipê, cedro-rosa e ingá, capazes de oferecer sombreamento definitivo para o cacau.

A produção também envolve o manejo cultural das plantas. Desbrotas, podas, enxertos, adubação de cobertura e utilização de biofertilizantes, como os fosfitos, além da irrigação, garantem índices de produtividade superiores. “Os fosfitos são ricos em fósforo e nutrientes, provenientes da queima de ossos com a palha de arroz”, conta.

A última fase é a colheita e o beneficiamento do cacau. “A colheita deve ser em tempo certo, seguida dos processos de quebra, fermentação e secagem. Este procedimento garante a qualidade do fruto para a produção do chocolate”, explica.

Produtividade

De acordo com Deusemínio, existe um salto de produtividade entre os agricultores que decidem investir em técnicas para elevar a produção dos cacaueiros. “Um cacaueiro totalmente abandonado pode produzir por ano cerca de 300 quilos por hectare, mas com manejo mínimo de roça, desbrota e retirada de vassoura de bruxa, essa produção dobra e chega aos 600 quilos por hectare”, diz.

Quando se utilizam todas as técnicas disponíveis, o quadro produtivo se altera completamente. “Com o manejo integrado, a produtividade média fica entre 1.500 quilos e 2.000 quilos anuais por hectare”, diz. “Todo o manejo integrado, juntamente com espécies de genética tolerante à vassoura de bruxa, além de sistemas de irrigação, podem fazer a produtividade atingir cerca de 3.000 quilos por hectare”, garante.

Segundo Deusemínio, em cada hectare são cultivados cerca de 1.100 pés de cacau. Em sua propriedade, ele deixa espaçamentos entre os corredores, que permitem a entrada de um trator. “Essas técnicas serão compartilhadas com agricultores que farão parte do projeto e que poderão fornecer cacau de qualidade para a futura fábrica de chocolates finos da Fazendinha Agroecológica”, confirma.

Manjar dos Deuses

O manjar dos deuses. Um alimento sagrado. Consumido pelos guerreiros maias e astecas. A semente do cacau era moeda. Trocavam sementes de cacau por escravos. O cacau é nativo da Amazônia.

 

Duas Sedes

A Fazendinha surgiu em 1997 como uma casa de sucos na região de Ariquemes. Em 2001, uma segunda sede foi inaugurada em Ouro Preto do Oeste. Nesse local, Deusemínio desenvolveu o projeto “A Fazendinha Agroecológica”.

A propriedade com 53 hectares em Ouro Preto possui cerca de dez hectares destinados a área de preservação ambiental. Antonio Deusemínio também vai realizar o plantio de 15 hectares de cacaueiros para abastecer parte da produção de chocolates finos de sua futura indústria.

A Fazendinha também conta com um centro de treinamento e um conjunto de chalés para hospedar pessoas interessadas em participar de cursos e atividades voltadas para áreas como educação ambiental e produção sustentável, aberto a instituições de ensino e associações. Um dos chalés hospedou este ano o biólogo e apresentador de TV Richard Rasmussen, que plantou um cacaueiro e ganhou até placa registrando a visita.

O Brasil pode produzir mais.

O Brasil é o 5º país no ranking mundial de produção de cacau, com 214 mil toneladas por ano, ficando atrás de países como Equador, Indonésia, Ghana e Costa do Marfim. Maior produtor mundial, a Costa do Marfim chegou a produzir 1.581 mil toneladas em 2016.

Apesar de todo o esforço dos produtores para aumentar seus números a quantidade produzida não tem sido suficiente para suprir a demanda do mercado brasileiro. De acordo com a CEPLAC Rondônia, o Brasil tem um parque processador com potencial de absorver em torno de 232 mil toneladas de cacau em amêndoas, ou seja, há um déficit de produção no mercado brasileiro. E essa realidade não é diferente no resto do mundo: o mercado mundial tem um déficit de aproximadamente 51 mil toneladas.

Déficit de 1 milhão de toneladas.

As projeções para o mercado futuro de cacau apontam que, até 2020, deverá haver um déficit de produção de cerca de 1 milhão de toneladas de amêndoas no mundo. Entre os fatores que contribuem para essa escassez do produto no mercado futuro está o aumento do consumo do chocolate combinado ao café gourmet na Ásia.

“Fazendo um comparativo, hoje a Europa consome em média, por ano, 9 quilos de chocolate por pessoa, enquanto a média na China é de apenas 50 gramas”, afirma Franco Lyrio, gerente da Barry Callebaut em Rondônia.

“Com o aumento do consumo previsto para a China se espera um aumento nos preços do cacau num prazo de dois a três anos, com impacto positivo para os produtores”, explica. De acordo com Lyrio, Rondônia chegou a produzir cerca de 30 mil toneladas de amêndoas de cacau há quinze anos. Mas, atualmente, o estado produz pouco mais de 15% desse volume. “Tem condições de crescer muito essa produção”, aposta.

Cacau é Alternativa

A produção de cacau é uma alternativa economicamente viável ao desmatamento em Rondônia. O estado é um dos maiores produtores do país. A espécie é nativa, contribuindo para a recomposição da reserva legal.

A média em Rondônia é de 600 quilos de cacau por hectare, mas com orientação técnica, a produtividade pode dobrar. A produção do fruto, que serve como matéria-prima para o chocolate, tem uma relação custo-benefício bastante positiva.

Uma das vantagens da lavoura de cacau é que uma família é capaz de cuidar de uma pequena propriedade, sem outros investimentos. Segundo técnicos da Ceplac, doenças como a “vassoura de bruxa” hoje são facilmente combatidas pelo agricultor, através da poda fitossanitária, sem uso de agrotóxicos.

O pico da produção acontece nos meses de maio a agosto. A colheita é realizada de 20 em 20 dias, o que garante remuneração permanente ao produtor. A planta tem longevidade bastante extensa, chegando a produzir por até 50 anos.

O cacaueiro deve ser consorciado com outras espécies de árvores por necessitar de sombra para se desenvolver. Isso gera uma renda extra para o produtor.

Enquanto o cacaueiro está pequeno, o plantio pode ser consorciado com a bananeira, que é utilizada como sombra provisória. À medida que o cacaueiro cresce, a bananeira deve ser substituída por espécies como a pupunha e o coco, ambos com retorno financeiro ao produtor.

Outra espécie consorciada em estudo é a bandarra, por garantir um sombreamento maior para o cacau. A árvore tem um crescimento acelerado e atinge vinte ou trinta metros de altura em poucos anos.

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