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O Grande risco das Criptomoedas
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O Grande risco das Criptomoedas

Nos últimos meses, a mídia nacional e internacional vem dando destaque para notícias relativas à ultravalorização das chamadas moedas digitais, ou moedas criptografadas, entre as quais se destaca a moeda Bitcoin (do inglês “moeda bite”). Esse dinheiro “virtual”, que não tem banco central nem casa da moeda, e também não tem lastro em riquezas monetárias reais, valia US$ 1 mil em janeiro de 2017, e fechou o ano cotado em inacreditáveis US$ 17 mil.

Para falar sobre mais esse fenômeno típico da nova era tecnológica e analisar seus possíveis efeitos numa sociedade cada vez mais dependente do mundo virtual, a revista Sócios & Negócios entrevistou o professor da Fundação Getúlio Vargas (ISAE/FGV), Robson Gonçalves.

Mestre em Economia pela Unicamp com graduação em Economia pela USP, especialista em análise e elaboração de cenários nos níveis macroeconômico e empresarial e autor de livros na área econômica, Robson Gonçalves fala sobre os cuidados que possíveis investidores devem ter em relação ao que ele considera que seja “tudo, menos moeda”.


As criptomoedas passaram a ocupar grande espaço na mídia nacional e mundial após o movimento de fortíssima valorização registrado nos últimos tempos. O que se pode esperar dessa nova moeda virtual num futuro próximo?

Antes de mais nada, as pessoas tem que entender que o Bitcoin tem uma dupla lógica: ele é ao mesmo tempo uma inovação tecnológica e financeira. E muitas vezes as análises enfatizam um aspecto e desprezam o outro. Mas os dois aspectos são intrínsecos e igualmente importantes. Esse tem sido um erro comum entre os analistas.

Um terceiro aspecto é a questão regulatória. Por exemplo, quando é lançado um Iphone no mercado, esse produto não está submetido a uma agência regulatória, muito menos está competindo com um estado nacional. Um Iphone é simplesmente um novo produto, um novo modelo de celular. O mesmo não acontece com o Bitcoin, pois ele está competindo com as moedas nacionais e portanto está sujeito a regulação.

Outro detalhe. Muitas inovações surgem e desaparecem algum tempo depois. Nossa geração conheceu bem o Orkut e o aparelho de DVD, só para citar dois exemplos. Eram grandes novidades e depois de um certo tempo se tornaram obsoletos. O mesmo pode ocorrer dentro de alguns anos com o Bitcoin e outras moedas criptografadas. Hoje, inclusive, temos mais de 1.000 moedas criptografadas, muitas surgem e logo morrem feito moscas.

O Bitcoin é uma inovação tecnológica, como foi por exemplo a máquina fotográfica digital, que acabou com o filme negativo da câmera. Os bancos não temem o surgimento de uma moeda que fuja de seu controle e sobre a qual não possam obter lucro?

Quando as pessoas vêm algo que dá lucro é comum que elas corram rapidamente sem se preocupar com os fundamentos daquilo. E muitos de fato ganham dinheiro com aquilo durante algum tempo, enquanto outros perdem dinheiro também. Então, especulação com ativos financeiros, sejam eles tecnológicos ou não, isso é algo cada vez mais presente.

A questão regulatória é que pega. Não são só os bancos que podem entender isso como uma ameaça. Os estados nacionais também. Se não existe mais um banco central controlando uma moeda, o próprio estado não consegue mais fazer a regulação daquela moeda. E quando você não consegue mais regular a política monetária, você expõe a vida das pessoas aos movimentos de especulação financeira.

A grave crise financeira de 1929 inaugurou a era dos grandes bancos centrais e da grande política monetária que não havia antes. E então, a partir daí, houve uma maior estabilidade dos mercados.

Esse seria o motivo de nações como Índia e China reagirem fortemente às moedas digitais como o Bitcoin?

Sem dúvida. E essa tende a ser uma reação geral. Porque um dia também a moeda papel chegou a ser uma novidade tecnológica. E a moeda papel podia ser emitida por qualquer banco. E o que houve foi uma fase de grande instabilidade. Isso ocorreu principalmente no período entre meados do século 18 e meados do século 19.

No Reino Unido havia um regime chamado de “Free Banking”, onde cada banco emitia sua própria moeda, e essa moeda estava lastreada em ouro. E o surgimento das criptomoedas é a reencarnação do “Free Banking” daquele período. Era uma inovação. Bancos emitindo moeda papel, que até então eram apenas metálicas, e que tinham seu lastro em ouro. E aqui, você emitindo criptomoedas, de maneira virtual, com o lastro na confiança das pessoas. Então já tivemos essa experiência de moedas sendo emitidas por vários atores em diferentes épocas.

Sempre se ouve falar que o próprio mercado se auto-regula. É assim realmente que funciona a economia? Isso se aplicaria ao Bitcoin?

Isso é um equívoco gigantesco! Quando você tem a possibilidade de mudança de posições de mercado, ativas e passivas, por meio da tecnologia da informação, o mercado está sujeito a um processo violentíssimo de crise. Então, a auto-regulação do mercado, a “mão invisível” do Adam Smith, nunca existiu na verdade. Você sempre teve a atividade regulatória do estado.

Toda vez que você deixa o mercado atuar livremente, ele se torna sujeito a um movimento de especulação, de ganho imediato de curto prazo. Se você tiver esse movimento de ganho imediato de curto prazo numa bolsa de valores, tudo bem. Ninguém é obrigado a entrar numa bolsa de valores.

Agora, quando todas as trocas, o dia-a-dia, o pão com manteiga do nosso café da manhã está sujeito a uma moeda, cujo valor pode oscilar em termos globais, você está trazendo uma lógica financeira para dentro do cotidiano das pessoas. Isso é altamente indesejável.

E para as pessoas comuns, que desejam investir talvez 100 reais por mês numa moeda virtual, para ver se é possível obter ganhos e depois retirar o dinheiro. Vale a pena correr o risco?

A pergunta vale para qualquer ativo de alto risco. Vale a pena eu entrar pela primeira vez no mercado de ações? Vale eu entrar num mercado futuro? Vale investir num multimercado? Se a pessoa está disposta a correr riscos, ele é um ativo financeiro de alta volatilidade como qualquer outro.

O fato dele ter alcançado uma forte valorização nos últimos anos não dá nenhuma garantia de que essa valorização irá continuar nos próximos anos, muito pelo contrário. Então é muito comum surgir aquele investidor que embarca depois da grande alta. Esses são os que correm maior risco.

Os Bitcoins seriam apenas especulação ou existe algo de novo?

O que se percebe hoje é uma grande especulação muito parecida com a que ocorreu com os commodities em 2008, quando houve um aumento violentíssimo do preço do petróleo. O que ocorreu foi que a bolha estourou e houve uma grande queda. Foi o que aconteceu com os imóveis na Espanha também.

Então, se estamos especulando com ativos reais, por que não especular com a criptomoeda? Na verdade, não tem nada de novo na criptomoeda. Ela é apenas uma recombinação de elementos. Concorrência entre moedas já houve várias vezes no passado. Bolhas especulativas em relação a ativos já ocorreram tantas outras vezes também.

O que está sendo colocado como ingrediente novo agora é a tecnologia da informação. Assim como a impressão da moeda papel no século 19 foi o grande salto tecnológico. As pessoas se impressionam muito com esses fenômenos porque não conhecem história. A lógica da economia de mercado não mudou radicalmente. Agora, se você deixar que a moeda que é referência de valor na economia, como um ativo qualquer sujeito à especulação, você instabiliza todas as informações econômicas existentes. Você passa a não saber mais se conseguirá pagar a sua conta de energia elétrica no final do mês.

Existe possibilidade que os bancos e até as cooperativas de crédito possam vir a operar com a criptomoeda futuramente?

Não existe nenhum impedimento para que os bancos concorram com os emissores da criptomoeda. Por conta da expertise que os bancos possuem e até na confiança do público em algumas dessas instituições, não no mundo inteiro, mas em alguns bancos, pela proximidade que eles tem junto aos seus clientes, enfim, nada impede.

Mas o que eu acredito como grande empecilho para um processo de generalização da criptomoeda para que substitua a moeda tradicional são os bancos centrais, não os bancos. Porque os bancos centrais não vão deixar de ter a capacidade de estabilizar a economia através da política monetária.

E seria possível aos bancos centrais gerir tudo isso?

Não. Seria impossível. Os bancos centrais têm a missão de coibir isso. Eles têm que restringir o campo da criptomoeda. Porque se as criptomoedas começarem a substituir as moedas tradicionais será o fim da política monetária como nós entendemos hoje. E isso é a contramão da história.

Todas as vezes ao longo da história que surgiram diversos padrões monetários, de alguma maneira o estado veio e impôs o seu padrão monetário. Porque se o estado não impuser, ele submete a economia a um nível de incerteza muito grande.

A concorrência é um processo caótico. E ela é interessante se você está pensando em pequenos mercados. Mas se você está pensando em grandes mercados, em uma concorrência não regulada, é o caminho mais claro para uma incerteza muito radical.

Como eu vou programar a minha aposentadoria se eu não sei quanto vai valer a criptomoeda quando eu me aposentar? Na verdade a gente não sabe nem quanto vai valer no final do dia. Então, se você elevar esse grau de incerteza típico dos mercados especulativos para o próprio padrão monetário, você irá desarticular as relações econômicas.

A questão não é se os bancos podem ou não entrar nesse mercado. Eles podem entrar nesse mercado. A questão real é os bancos centrais perderem a capacidade de dar uma âncora para a economia. A moeda tem que ser uma âncora para a economia, chamada de reserva de valor. Ela não pode estar submetida a fortes movimentos especulatórios.

A criptomoeda pode vir a substituir algum dia, por exemplo, o dinheiro de plástico?

Não vejo essa possibilidade. Porque quando as pessoas começarem a não poder mais pagar suas contas, a não terem a menor ideia do que significa o valor de um compromisso futuro, elas irão, por terem aversão à incerteza, simplesmente fugir disso.

A questão é a seguinte: você assinaria um contrato de aluguel numa criptomoeda? Você formaria uma previdência privada numa criptomoeda? Você assumiria uma dívida de longo prazo numa criptomoeda? Se a resposta for não, ela não substitui os meios de pagamento tradicionais.

Porque ela não é reserva de valor. Se o valor dela oscila fortemente frente a movimentos especulativos, eu não vou assinar contratos e me comprometer a liquidar contratos em criptomoeda. A institucionalização da criptomoeda para que ela seja um meio de pagamento difundido é que representa, na minha opinião, até esse instante, uma total impossibilidade.

Uma moeda que se valorizou tanto como o bitcoin nos últimos anos, se eu tivesse assumido uma dívida em bitcoins lá atrás, eu não teria como pagar essa dívida. Eu teria quebrado. Se eu tivesse pego emprestado 50 bitcoins, para pagar num prazo de cinco anos, com uma valorização de 500%, como eu iria fazer para pagar? Quebrei!

Então, por definição, uma moeda tem que ter um valor razoavelmente estável no tempo. Senão, ela não substitui os meios de pagamento tradicionais. A única coisa que estou vendo é uma inovação tecnológica que se transformou num ativo financeiro de grande capacidade de ganhos especulativos. E isso é tudo, menos moeda!

Ela seria semelhante a uma pirâmide?

Não, eu não diria isso. Ela é um ativo de alta volatilidade. Porque numa pirâmide você amarra pessoas, obrigando-as a lhe fazerem pagamentos no futuro. A criptomoeda não obriga ninguém a fazer pagamentos futuros. Ela é um ativo de alta volatilidade.

Por exemplo: quando o alumínio foi inventado e começou a se difundir no século 19, alguns nobres europeus faziam jogos de baixelas de alumínio, porque a tecnologia era tão rudimentar que era muito caro se produzir alumínio. Por isso, as pessoas acreditavam que o alumínio seria a nova prata, o novo ouro. Por causa do custo altíssimo de produção. Mas o que aconteceu quando essa tecnologia mudou? Você passou a ter panelas de alumínio para pessoas pobres.

E aquelas baixelas de alumínio, lindas e decoradas, dos reis europeus do século 19, hoje estão nos museus. No dia em que a tecnologia mudar, poderá transformar o bitcoin na panela de alumínio. E quem investiu pesado em Bitcoins, que hoje parece ser algo altamente valorizado, poderá ver seu investimento virar poeira da noite para o dia.

Esse seria então o caso dos chamados “mineradores” de Bitcoins, que investem em servidores caros e têm alto custo de energia elétrica para poderem “minerar” a moeda virtual?

Sim. Exatamente. E se a tecnologia de mineração muda? É como aconteceu com os grandes cantores pop dos anos 70, da época do disco de vinil. Eles gravavam o disco e vendiam. Ninguém era capaz de produzir um disco de vinil. Somente a indústria fonográfica. Vieram então os cds, e então já havia tecnologia para copiar cds. Até que chegou o streaming e as pessoas passaram a baixar músicas de graça pela internet.

E o valor do ativo, a composição musical, foi rebaixado por conta da nova tecnologia de reprodução das músicas. Então, a mesma tecnologia que criou o Bitcoin poderá destruí-lo, assim como a tecnologia que criou o Orkut destruiu o Orkut.

Muito que se fala sobre Bitcoin é desconhecimento de dinâmica tecnológica, desconhecimento de ativos financeiros e do que seja moeda. Como pode haver uma discussão sobre as possibilidades de ganho financeiro com uma criptomoeda se as pessoas não sabem o que é inovação tecnológica, ativo financeiro e o que é moeda? Então fica algo pouco discutido e a única coisa que aparece é a valorização, porque isso você comunica fácil na mídia.

Numa escala de 1 a 10, qual seria a possibilidade de os bancos assumirem operações com os Bitcoins?

A possibilidade dos bancos assumirem o Bitcoin é 10, mas o interesse é muito próximo de zero. Os bancos sempre jogam o jogo do Banco Central. Os bancos por definição sempre estão ao lado dos bancos centrais. O interesse portanto do sistema financeiro, incluindo o Banco Central, é o da não difusão da criptomoeda como meio de pagamento.

Eu diria que os bancos não estão apostando que no futuro as moedas tradicionais serão substituídas pelas criptomoedas, porque os bancos centrais não vão permitir que isso aconteça. Agora, quanto a ter condições de assumir operações com a criptomoeda, qualquer banco poderia assumir esse tipo de operação, mas certamente sofreria pressões por parte do Banco Central.

As principais corretoras que trabalham com criptomoedas estão tendo suas contas encerradas em alguns dos maiores bancos do país…

Isso certamente reflete uma pressão do Banco Central sobre os bancos. Nós temos que impedir que as moedas virtuais circulem além de um certo limite, de um ativo financeiro, de conteúdo tecnológico de alta volatilidade.

Não é muito diferente de um banco central que proíbe a circulação do dólar em seu país. O dólar não pode circular no Brasil. Ninguém é obrigado a receber dólares em pagamento de nada. Por quê? Porque se o dólar flutua junto com o real, ele “mata” o real. Então você baixa uma norma e proíbe. Se as criptomoedas forem uma ameaça para as moedas nacionais, os bancos centrais proíbem isso. E aí chamam os bancos para trabalharem com eles.

Mas dizem que seria impossível proibir a circulação de uma moeda justamente por ser virtual…

Veja que na prática funciona assim… Se você proíbe o pagamento de impostos e salários com moedas virtuais, se você proíbe a fixação de contratos em moedas virtuais, com esses três grandes campos – impostos, salários e contratos – você impede que essas moedas possam ser institucionalizadas.

E dentro de uma bolsa de valores?

Se ela for um ativo de alta volatilidade negociado em bolsa, ela será tudo, menos moeda. Porque você não pode pagar impostos com ações, também não pode pagar salários com contratos futuros, você tem que usar obrigatoriamente a moeda nacional, a moeda tradicional.

Restringindo aqueles três grandes campos, você empurra a moeda virtual para o campo em que ela deve ficar – o de ativos financeiros de conteúdo tecnológico de alta volatilidade. Aí pode acontecer qualquer coisa. Eu posso vender terrenos na Lua, se eu encontrar alguém que esteja disposto a comprar. Como eu vou entregar depois é outra questão. Se o sujeito vai me processar depois é outra questão.

O sr. recomendaria a um cooperado do Sistema Sicoob ou correntista de algum banco a investir em Bitcoins?

De novo. É uma questão pessoal de quem quer correr riscos com ativos financeiros de alta volatilidade. O que eu sei é que depois da forte alta dos últimos anos, qualquer análise fundamentalista diria que vai haver a realização de lucros e a cotação tende a cair, até um preço justo. Depois, haverá outro ciclo de alta. Mas quando será este novo ciclo de alta? Não sei. É um ativo tão novo…

Então, se a pessoa se dispõe a correr riscos, acho que tem mais é que comprar ativos de alto risco. Mas eu não posso fazer uma recomendação generalizada. Isso depende da disposição de cada um de correr riscos. Eu pessoalmente não compraria, porque eu tenho um perfil conservador.

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