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O Artista da Floresta
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O Artista da Floresta

Ele partiu de Seringal da Flora, no Acre, para se tornar um mestre da marchetaria nos principais centros europeus. Mas faltava realizar uma importante tarefa em sua terra natal

O artista plástico acreano Maqueson Pereira da Silva é o um dos nomes mais respeitados em todo o mundo numa arte única e milenar, a Marchetaria. Seus trabalhos têm como temática a riqueza e exuberância da Amazônia, em todos os seus detalhes. Algo natural para o artista, que nasceu em 1958 e viveu até os dezoito anos em meio à floresta tropical, na localidade de Seringal da Flora, município de Porto Walter.

O avô, cego pela fumaça da borracha, ensinou-lhe um beabá original: gravetos e sementes na floresta, pousados num tabuleiro com letras, abriram-lhe o mundo das palavras escritas e de todas as histórias da floresta. Com o pai, cortou seringa e aprendeu a fazer barcos, motivos constantes de sua arte. Ali viveu até a adolescência, buscando lagartos, caçando cobras, descobrindo os mistérios da mata, vivendo uma infância feliz num mundo único e isolado, desconhecido até hoje para a maioria dos brasileiros.

Em 1973, da liberdade do Seringal da Flora, partiu para outro pequeno mundo, em Porto Walter, que lhe marcaria a alma e a arte para todo o sempre: o Colégio dos Padres Alemães da Congregação do Espírito Santo – aos quais a história do Acre está a dever reconhecimento, pela inimaginável presença educativa nos cafundós da Amazônia – que o acolheria, aos 15 anos, para seus primeiros estudos formais.

Aos 18 anos, partiu para um mundo novo, completamente estranho ao rapaz da floresta, indo estudar no Seminário Liebermann, no pequeno município de Salete, no Vale do Itajaí, em Santa Catarina. Ali, passou a dar os primeiros passos em direção à arte que marcaria sua vida para sempre. “Era da floresta, nunca tinha visto um carro em minha vida”, lembra Maqueson.

De volta ao Acre, ele ampliou seu interesse artístico, apurando os conhecimentos de marchetaria, sob a supervisão do Padre Herbert Douteil, cuja amizade e conhecimento o guiariam por toda a vida. Em 1989, Maquesonvoltou ao sul, para se casar com a catarinense Linda. Flores e mais flores se derramam em seu trabalho com o nascimento de suas filhas, por sua visão maravilhada da imensidão dos campos floridos de Santa Catarina.

Europa

Nas décadas seguintes, o artista iria desenvolver seu estilo e técnica únicos, que o levariam a estudar nos mais consagrados centros da Europa, na Suíça, Alemanha, Itália e França. Mas nunca conseguiu ficar muito tempo longe de sua terra natal. “Estar no Acre é ser coerente com a minha natureza amazônica, nunca faltaram convites para morar e trabalhar na Europa, mas o Acre é meu lugar, de minha esposa e minha família”, diz. “Minha alma está aqui”, confessa.

Há duas décadas, Maqueson construiu seu ateliê no município acreano de Cruzeiro do Sul, onde mais de vinte artesãos orientados pessoalmente pelo artista produzem belos e exclusivos trabalhos, seja para turistas e colecionadores, seja para encomendas de grandes empresas multinacionais, de autoridades públicas e órgãos de governo.

“Creio que tenho um trabalho humano a desenvolver aqui, pois muitos de meus ex-alunos deixaram drogas, furtos e prostituição para abraçar esse ofício e essa arte”, explica. “Fico muito feliz e realizado em poder ser um instrumento para libertar todas essas pessoas”, diz.

O artista e a floresta

 

Na Amazônia, o poder criador do artista se revela. Nos detalhes dos galhos, cascas, raízes e madeiras, na onça pintada e na majestosa Sumaúma… tudo nas mãos de Maqueson se transforma em expressão única de seus mundos, quereres e viveres.

Através da arte da marchetaria, o artista não apenas exercita sua paciência em uma técnica exigente, mas, também, recria e inova, a partir dos materiais que a floresta amazônica lhe concede com benevolência.

Com obras repletas de significâncias, o trabalho de Maqueson dignifica a arte amazônica, porque, ao mesmo tempo em que reflete valores plásticos e estéticos universais, reconstrói o regional e o local, onde o telúrico e o humano se reencontram e se reconciliam em florestas, pássaros, flores, folhas, rios e céus, de uma portentosa beleza de que a Amazônia é pródiga.

O espaço da cultura ganha significados maiores pela expressão de um específico e determinado viver – o viver na maior floresta tropical contínua do mundo. E seus trabalhos artísticos ocupam os grandes ambientes públicos do Acre e são levadas aos principais centros do país e do mundo, tendo como marca registrada a Amazônia.

Uma arte milenar

 

Marchetaria é a arte de ornamentar as superfícies planas de móveis, painéis, pisos, tetos, através da aplicação de materiais diversos, tais como: madeira, metais, pedras, plásticos, madrepérola, marfim e chifres de animais, tendo como principal suporte a madeira. Com a técnica, é possível construir objetos tridimensionais, esculturas, utilitários e jóias.

A origem do nome “marchetaria” vem do francês marqueter, que significa embutir. Trata-se de um artesanato que nasceu antes das artes e continua vivo desde então, reunindo utilidade e beleza. Fruto da mente e obra das mãos, o artesanato é ponte entre a herança coletiva e o gosto individual, a cultura e o estilo, sem abrir mão de sua essência serviçal.

Os primeiros registros da arte são de uma bacia de pedra calcária da Mesopotâmia, datada por volta de 3.000 a.C. Posteriormente, os egípcios antigos aprimoraram a técnica com a arte de embutir madeiras coloridas em superfícies de madeira e com o desenvolvimento do bronze para fabricação de serras.

Com o passar do tempo, a marchetaria entra em uma fase de relativa decadência, sendo que tal arte fora mantida por não mais do que uma centena de artistas, ressurgindo, porém com o advento da art nouveau; aparecem então os motivos estilizados tais como: flores, pássaros, borboletas, insetos etc.

Ateliês

Atualmente existem na Europa, América do Norte e Austrália muitos ateliês de Marchetaria e associações de marcheteiros dispostos a não somente manter as antigas tradições da Arte em Madeira com refinadas criações artísticas de caráter contemporâneo, mas também a restauração de obras antigas. Ao longo do ano são realizadas várias exposições e há um mercado já consolidado neste campo.

Muito além da simples função utilitária, as peças fazem parte da decoração de escritórios e residências. As principais áreas de atuação da marchetaria são a construção de objetos utilitários, bijuterias, reciclagem de móveis, painéis para a decoração, quadros, esculturas e decoração.

Publicado em edição 10| Março 2017

Maqueson Pereira

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