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O Avanço da Soja
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O Avanço da Soja

Iniciado há cerca de trinta anos, nos municípios da região de Vilhena, o plantio de soja em Rondônia vem apresentando altos índices de crescimento. Novas fronteiras agrícolas foram abertas em todo o estado, que revela forte vocação para o cultivo do grão.

Terras férteis e planas e clima quente e com estação de chuvas bem definida são os ingredientes naturais. O investimento em máquinas, equipamentos e tecnologia, que inclui o desenvolvimento de novas cultivares de soja, específicas para as lavouras de Rondônia, compõe o esforço científico.  O resultado é o aumento da produtividade e a ampliação das áreas de cultivo. Um exemplo é o crescimento do plantio no Vale do Jamari. Somente na última safra, houve um acréscimo de mais de 70% na área de cultivo nos municípios da região de Ariquemes. Os dados são ainda mais expressivos em Machadinho D’Oeste, que registrou aumento recorde de 220% na produção do grão na última safra.

Nos distritos que formam a zona rural de Porto Velho, a abertura de novas áreas para lavouras de soja e milho não tem precedentes. No Cone Sul do estado, onde os investimentos em tecnologia ocorrem há mais tempo, a produtividade é superior à dos grandes centros nacionais.

 

Principal

 

A soja é hoje o principal produto agrícola de Rondônia, tanto em volume de produção quanto em valores. Segundo dados da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), divulgados em janeiro de 2017, houve um aumento de 3,4% na área plantada de soja em Rondônia para a safra 2016/17.

Além disso, no estado o grão possui produtividade média de 3.028 kg/ ha (Safra 2015/16), superior à média nacional que foi de 2,882 kg/ha na mesma safra. E a expectativa para a safra atual, que acaba de ser colhida,é de que a produção chegue a 811 mil toneladas de soja.

As exportações do estado somaram US$ 276 milhões, ou cerca de R$ 800 milhões, para um volume exportado de 766 mil toneladas. Vilhena,Corumbiara, Cerejeiras, Chupinguaia e Pimenteiras, todos no Cone Sul, são pela ordem os cinco principais municípios produtores do grão no estado.

 

Brasil

 

O Brasil é o segundo maior produtor mundial de soja, atrás apenas dos EUA. Na safra 2015/2016, a cultura ocupou uma área de 33,903 milhões de hectares, o que totalizou uma produção de 95,631 milhões de toneladas.

A produtividade média da soja brasileira foi de 2.882 kg por hectare. O cerrado brasileiro representa hoje o principal bioma para o plantio da soja no país, afirma o chefe da Embrapa Cerrados, Cláudio Takao Karia. Os principais estados produtores da região do cerrado são o Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Bahia, Minas Gerais, Maranhão, Tocantins, Piauí, Rondônia, Pará e Distrito Federal.

 

Novas cultivares

 

A Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) desenvolveu novas cultivares de soja (convencional e transgênica) específicas para as lavouras de soja do estado de Rondônia. As novas sementes são mais resistentes a nematoides, doenças e pragas, comuns na região.

A novidade para este ano é a cultivar BRS 7380 RR. Apresentada nos dias de campo da Embrapa nas principais regiões produtoras do estado, a variedade apresenta como característica a precocidade. Produz mais rápido, em um ciclo aproximado de 100 dias, oque possibilita antecipar, por exemplo, o plantio do milho safrinha, aproveitando as chuvas do início do ano. “Isso representa um prazo até 30 dias menor que outras cultivares”, explica o engenheiro agrônomo Rodrigo Brogin, da Embrapa Soja. A nova cultivar já está em fase de testes no estado e será lançada oficialmente no mês de setembro. “Essa variedade possui alta resistência a nematoides de cisto e galha, que é um diferencial presente em poucas cultivares”, explica.

 

Tecnologia

 

“O produtor precisa evitar erros, que podem significar grandes prejuízos”, diz Frederico Botelho, chefe de Transferência de Tecnologia da Embrapa Rondônia. “Hoje é fundamental o uso de cultivares adaptadas à região de plantio e tecnologias apropriadas, que potencializam bons resultados, aumentam a produtividade e rendem maiores lucros”.

Botelho destaca o uso da soja como alternativa para os pecuaristas no processo de recuperação de pastagens degradadas, utilizando para isso o sistema de integração lavoura-pecuária (ILP). “Assim, é possível recuperar áreas sem avançar sobre a floresta”, reforça. Nas últimas quatro décadas, a Embrapa lançou mais de 50 variedades de soja que têm contribuído para a agricultura na região do cerrado.

 

Safrinha

 

No Cone Sul do estado, as áreas de soja já estão consolidadas. O município de Vilhena possui a maior área de produção de soja do estado e conta com alto nível tecnológico em suas lavouras. “Hoje, os produtores dessa região estão em busca de cultivares que potencializem a semeadura da safrinha (segunda safra com milho, sorgo, girassol e outras culturas)”, diz.

Com potencial para elevar seus índices de produtividade nos próximos anos, as regiões central e norte de Rondônia estão em expansão. “Anualmente há novas áreas onde está sendo introduzida a cultura da soja e isto faz com que a escolha de cultivares adaptadas e adequadas para cada situação seja uma etapa que impactará significativamente nos resultados finais e na lucratividade”, conclui.

 

Produtividade aumenta. Os custos também

 

Na Fazenda Mezzomo, na região de Ariquemes, o produtor rural Nereu Mezzomo cultiva soja há nove anos. São 520 hectares de plantio, com uma produtividade média de 60 sacas por hectare. Este ano, Nereu espera colher em torno de 1.870 toneladas de soja. “O ano passado foi difícil para todos por causa da falta de chuvas, mas esse ano já houve uma retomada nos índices de produtividade, superando inclusive nossas expectativas”, ressalta Nereu. “Nosso maior problema ainda é o Custo Brasil”, explica. “Nossos custos aumentaram de maneira geral, tanto nos defensivos, fertilizantes, sementes e também no diesel das máquinas”, diz. Essa também é a opinião do produtor Fernando Dias, da Fazenda São Paulo, que cultiva cerca de três mil hectares entre os municípios de Alto Paraíso, Cujubim e Rio Crespo, no Vale do Jamari. “Os custos para o produtor tem sido bastante elevados”, diz o agricultor, que há oito anos deixou a região de Céu Azul, no Paraná para cultivar soja em Rondônia.

 

Vale do Jamari deverá tomar a dianteira

 

Para o engenheiro agrônomo Vicente Godinho, da Embrapa Rondônia, a região do Vale do Jamari deverá se tornar, em poucos anos, a principal região produtora de soja do estado. “A proximidade do porto, com menores custos no frete e na aquisição de insumos, serão determinantes”, explica Godinho. “Hoje, mais de 30% dos custos são representados pelos fertilizantes”, diz. O pesquisador da Embrapa explica que, somente no último ano, houve um aumento de mais de 70% na área de cultivo da soja na região do Vale do Jamari. Ele calcula que os produtores da região, por estarem mais próximos do porto, conseguem obter um ganho adicional de até seis reais por saca em relação a Vilhena. “O custo do frete é muito elevado”, raciocina. Para virar esse jogo, isto é, aumentar a lucratividade do produtor, Godinho explica que uma excelente alternativa é a integração com a pecuária. Ele afirma ainda que a expansão da soja sobre novas áreas em Rondônia não significa derrubar florestas, mas intensificar o sistema de produção agropecuário, tornando-o mais eficiente, produtivo e sustentável.

O pesquisador conta que a soja ocupa pouco mais de 1% da área de Rondônia (260 mil hectares), que a pecuária está presente em cerca de 8 milhões de hectares e que toda a área de expansão de soja será onde hoje se pratica a pecuária. “Isso não quer dizer que haverá redução de rebanho, pelo contrário, irá aumentar. Pois os pecuaristas que integram esta atividade com a soja aumentam o rebanho, por conta da melhoria da qualidade do pasto e da intensificação do sistema de produção que ocorre”, arremata.

Entre as alternativas para o produtor obter maiores ganhos, Godinho aponta o plantio de capim após a colheita da soja. “O capim é mais seguro pois não depende tanto das chuvas, como outras culturas de safrinha”, diz o pesquisador. “Hoje, cerca de 20% da área cultivada de soja em Rondônia já recebe capim”, afirma. “O produtor também tem a opção de plantar milho e capim após a colheita da soja, que acontece a partir de janeiro”, conclui.

 

Publicado na edição #10 | Março 2017

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