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Projeto RECA
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Projeto RECA

Projeto RECA

Está situado no noroeste do Brasil, na divisa dos estados de Rondônia e Acre. Criado na segunda metade dos anos 80, o projeto RECA (Reflorestamento Econômico Consorciado Adensado) foi implementado sem qualquer participação dos governos da época.

A união e a força de trabalho de centenas de agricultores imigrantes, vindos do sul, sudeste e nordeste do país, foram as motivações para o sucesso dessa iniciativa. Eles se reuniram na localidade de Nova Califórnia, a 150 km de Rio Branco e a 350 km de Porto Velho. Isolados dos grandes centros, buscaram se organizar e, posteriormente, conseguiram captar recursos vindos de instituições nacionais e internacionais para iniciar o projeto.

Os colonos iniciaram seu trabalho com reuniões embaixo de árvores nos quintais das casas. Após algum tempo, compraram uma pequena casa onde foi construído um escritório. Mais tarde, o grupo adquiriu um terreno com um barracão grande, onde foi iniciado em 1992 o beneficiamento das polpas de frutas de forma artesanal.

Maturidade

Hoje, perto de completar quatro décadas de intenso trabalho, o projeto chega à sua maturidade. Frutos, caules e sementes da floresta tropical brasileira, como o cupuaçu, o açaí, o palmito pupunha e a castanha, e espécies lenhosas, como a andiroba, a copaíba e o cumaru, servem como matéria-prima para a produção de polpas, óleos, extratos e manteigas. Após o processo industrial, os produtos são comercializados nos mercados regional e nacional.

Uma das parcerias mais antigas e economicamente sustentáveis do projeto RECA foi firmada em 2001 com a gigante de cosméticos Natura. A empresa possui uma linha específica de produtos – a Natura Ekos – elaborada a partir de óleos e essências florestais da Amazônia. Uma parte da matéria-prima utilizada como base para os avançados processos industriais da Natura é fornecida pelo projeto RECA.

Colheita

As áreas de cultivo estão distribuídas ao longo de centenas de pequenas propriedades de produtores agroextrativistas que moram na região. Muitos são associados ao projeto desde a sua fundação, em 1989. Estes associados são os verdadeiros “donos” do projeto. São ao todo cerca de 300 famílias associadas ao RECA, além de outras 400 famílias de produtores locais que fornecem produtos ao RECA.

“Além das famílias de produtores, temos cerca de 40 funcionários que trabalham na área administrativa e nas instalações agroindustriais”, explica o diretor-presidente do Projeto RECA, Alexsandro Queiroz dos Santos. “Na época da colheita da safra, esse número sobe para perto de 100 trabalhadores”, confirma.

Em suas pequenas propriedades, as famílias de produtores utilizam os chamados SAFs (Sistemas Agroflorestais), que combinam diversas espécies da floresta numa mesma área. Dessa forma, pés de pupunha, andiroba, cupuaçuzeiros, açaizeiros e castanheiras podem ser encontrados próximos a plantios de banana, maracujá, araçá-boi ou abacaxi.

O Projeto RECA possui mais de 2.500 hectares de Sistemas Agroflorestais implantados. São vários tipos e esquemas de plantios, com pouquíssimas áreas de monocultura. Mais de 40 espécies florestais são cultivadas e industrializadas, como alimentos, cosméticos e também como remédios naturais, incluindo bacaba, andiroba, copaíba, sangue de dragão, rambotã e seringa, entre outras.

 

Comercialização

Após a colheita e transporte até a sede do RECA, em Nova Califórnia, município de Porto Velho, cada produto recebe atenção especial. As sementes de cupuaçu e andiroba passam por um processo de secagem, antes de serem beneficiadas para extração da manteiga do cupuaçu e do óleo de andiroba. Os óleos de cupuaçu, castanha e andiroba são muito utilizados pela indústria de cosméticos.

Na indústria de alimentos, se destaca o palmito pupunha, de alta qualidade, que passa por um rigoroso processo industrial dentro da unidade do RECA antes de ser transformado em conserva e comercializado em diversos estados brasileiros.

As sementes de pupunha são certificadas pelo Ministério da Agricultura e comercializadas emtodo o território nacional. As polpas de frutas como cupuaçu, açaí, acerola, graviola, goiaba,maracujá e abacaxi também são industrializadas e comercializadas pelo RECA.​

Por tudo isso, o RECA se transformou num exemplo único de desenvolvimento econômico eindustrial, de respeito ambiental e de associativismo, servindo de exemplo para o Brasil e para o mundo.

Novos Equipamentos

A unidade industrial do projeto RECA foi ampliada e recebeu novos e modernos equipamentos no primeiro semestre de 2017. As instalações incluem três unidades de beneficiamento e uma unidade de tratamento dos produtos florestais. O projeto também conta com uma unidade administrativa com escritório, refeitório e biblioteca, além de uma loja que comercializa mel, doces, geléias, licores, conservas e até sabonetes, entre diversos produtos com o selo do RECA.

A unidade de beneficiamento de polpas beneficia polpas de frutas como o cupuaçu, açaí, acerola, abacaxi, goiaba e graviola, entre outras. A unidade de beneficiamento de palmito de pupunha faz todo o processo industrial que resulta numa conserva de palmito de excelente padrão de qualidade.

Na unidade de beneficiamento de manteiga e óleos ocorre o beneficiamento da manteiga de cupuaçu e dos óleos da castanha, andiroba e copaíba, que são fornecidos como matéria-prima para indústrias de cosméticos como a Natura do Brasil. Já a unidade de tratamento das sementes de pupunheira é voltada à comercialização dessas sementes, com registro no Ministério da Agricultura e certificado de garantia.

Uma nova câmara fria foi construída, com capacidade para armazenar 400 toneladas de polpas e outros produtos. No pico da safra, nos meses de março e abril, o projeto recebe em média 30 toneladas de frutos por semana. Anualmente, são comercializadas cerca de 150 toneladas de polpa de açaí para indústrias dos grandes centros do país.

Um novo grupo gerador também foi construído, com capacidade instalada de 500 kVA, mais que suficiente para suprir todas as necessidades da indústria. Recentemente, o RECA recebeu recursos do BNDES, para ampliação de sua estrutura agroindustrial, por meio do Fundo Amazônia.

 

Produtos da Floresta

Cupuaçu
O cupuaçu é o produto mais abundante. Possui aroma perfumado e sabor agridoce muito marcante. Todos os anos são produzidas toneladas de frutos que são transformados em polpa, que serve como alimento na forma de doces, sorvetes, sucos ou vitaminas. A manteiga serve como base para a indústria de cosméticos e outros produtos derivados.

Açaí
A safra do açaí é processada na indústria e transformada em polpa para atender o mercado regional e nacional. O fruto roxo do açaizeiro se tornou mundialmente conhecido nas últimas décadas, como alimento de alto poder energético e fonte de saúde e bem-estar, usado tanto em pratos típicos da culinária do norte como em sobremesas muito apreciadas em todo o país.

Palmito Pupunha
O Palmito Reca é industrializado sob o mais rigoroso controle de qualidade e de vigilância sanitária, garantindo sabor e qualidade incomparáveis.

Semente de Pupunha Lisa
As sementes possuem registro no Ministério da Agricultura, garantia de germinação e percentual de plântulas lisa, com disponibilidade na safra entre os meses de janeiro a junho, atendendo demandas de compra de todo o país.

Castanha
Da semente da castanheira se extrai o óleo utilizado pela indústria de cosméticos. A gigantesca árvore da floresta amazônica fornece as sementes que também são muito apreciadas como alimento rico em nutrientes e fonte natural de saúde.

Andiroba
A árvore amazônica de grande porte fornece as sementes de onde se extrai o óleo utilizado com inúmeras aplicações para a indústria de cosméticos e medicamentos.

Cumaru
A semente dessa árvore típica da Amazônia possui uma fragrância única e começou a ser fornecida recentemente, em pequenas quantidades, como componente industrial para a produção de perfumes de indústrias mundialmente conhecidas.

Pioneiro do Projeto

O agricultor Selvino Sordi é um dos pioneiros do RECA. Ele veio a Rondônia em 1976, oriundo do município gaúcho de Marcelino Ramos. “Iniciamos as discussões sobre a criação do projeto em 1987”, recorda Selvino, que é um dos cerca de 300 sócios-fundadores.

Selvino tem sete hectares de cultivo, na maioria cupuaçu, açaí e pupunha. “O RECA me paga um valor adicional por utilizar o plantio orgânico”, destaca. Selvino também cultiva um pouco de café, que fornece uma renda extra para sua família. “Acho que o RECA deu certo porque nunca houve nenhuma influência política nem religiosa no projeto”, garante. “Isso está no nosso estatuto de fundação”, completa.

 

Certificações do Projeto

O RECA trabalha com dois modelos de certificações para os seus produtos: orgânica e florestal. A Certificação Orgânica vem sendo trabalhada em dezenas de propriedades, há mais de dez anos, através do Instituto Biodinâmico de Desenvolvimento Rural (IBD).

O objetivo dessa certificação é o de atender o mercado interno com o selo de produtos orgânicos do Brasil. O RECA também está apto para realizar futuras exportações aos mercados europeu e norte-americano.

Assim como ocorre com a certificação orgânica, o RECA também possui certificação florestal em dezenas de propriedades de famílias que já foram certificadas, enquanto as demais estão em processo de certificação. Estes trabalhos são conduzidos por meio do IMAFLORA.

Modelo de Cooperativismo

O RECA é um exemplo muito bem-sucedido de cooperativismo de produção que utiliza os recursos naturais da floresta, combinando viabilidade econômica e preservação do meio ambiente.

Os produtores associados estão organizados em grupos. Cada grupo possui um líder e um coordenador. O líder é quem organiza os trabalhos em mutirões, promove reuniões de grupo e demais atividades coletivas.

Já o coordenador executa trabalhos relacionados à organização do projeto, como execução e fiscalização de projetos e obras, aquisição de veículos e equipamentos e relacionamento com o público externo.

“O projeto possui diversas equipes de trabalho e realiza anualmente duas assembleias gerais, onde todos os associados se reúnem para discutir e tomar as decisões finais sobre a aprovação de balanço de safra e demais assuntos de interesse”, diz o diretor-presidente do Projeto RECA, Alexsandro Queiroz dos Santos. “A cada dois anos ocorre a mudança e eleição da diretoria executiva”.

O RECA também organiza grupos de produtores para viagens e visitas de intercâmbio, onde os interessados podem conhecer novas atividades e técnicas produtivas sustentáveis, que contribuem com o desenvolvimento de suas propriedades rurais e do próprio conhecimento.

 

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