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Na crise, todo cuidado é pouco.
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Na crise, todo cuidado é pouco.

Na crise, todo cuidado é pouco.

Um dos mais respeitados especialistas brasileiros nas áreas de Governança Cooperativa e de Gerenciamento de Riscos Corporativos, com ampla experiência na efetiva implementação da gestão de riscos em instituições financeiras, o professor José Carlos de Assunção desempenha atuação destacada à frente de instituições como a FGV Management e o ISAE/FGV. Na entrevista a seguir, ele aborda o papel fundamental da área de gestão de riscos em empresas e cooperativas de crédito, especialmente no momento em que o país atravessa, de profunda crise econômica e institucional.

Qual a importância do gerenciamento de riscos em uma cooperativa financeira?

O gerenciamento de riscos ou gestão de riscos, desde que adequado ao perfil de riscos da instituição, com certeza fará parte do sucesso da cooperativa. Mas é bastante possível que esse processo não seja valorizado na organização. Isso porque, numa visão de curto prazo – nossa visão mais proeminente – esse formato de gestão não melhora a venda de produtos e serviços.

A verdade é que, quando o gerenciamento de riscos funciona, ele não aparece e a percepção é de que ele não é necessário. Mas quando não funciona, quando não existe uma definição clara dos limites de perda toleráveis, e mesmo quando o tratamento de riscos não é feito de acordo com estes limites, podem surgir surpresas bastante desagradáveis. Aí sim, não tenha dúvida, fica um sentimento de que o problema é que a gestão de riscos não funciona.

Quais seriam então as condições essenciais para que o gerenciamento realmente funcione?

A gestão de riscos pressupõe pessoas preparadas e conscientes de sua importância estratégica e com pleno conhecimento de seus métodos. Além disso, sempre apresenta níveis de complexidade que merecem muita atenção. Não há atividade negocial sem os chamados riscos inerentes, normalmente esse intrincado processo nasce, por intermédio do conselho de administração, nas políticas de gerenciamento de riscos e até de negócios.

Nos trabalhos que desenvolvo, tenho constatado frequentemente muitos conselheiros de administração que aprovam políticas sem entenderem efetivamente o que estão aprovando e as consequências da aplicação desses instrumentos.

Já encontrei conselheiros que aprovaram políticas de gerenciamento de riscos sem nem ao menos ler aquilo que estavam prestes a aprovar. Nesses casos, a gestão de riscos não será integrada e nem funcionará adequadamente. Na realidade, passa a ser uma peça de ficção e, nessa linha, simplesmente estão sendo jogados preciosos recursos fora.

Existe algum estudo que comprove isso?

Vou citar aqui uma reportagem de 27/03/2013, onde a Revista Exame publicou resultado de pesquisa mundial da McKinsey & Company, informando que, naquela oportunidade, de 1.597 conselheiros de administração pesquisados, apenas 14% estavam a par dos riscos que a companhia enfrentava.

Esse tipo de informação precisa nos levar a uma boa reflexão de como conselheiros de administração estão atuando em nossas organizações com relação ao gerenciamento de riscos. Ter uma boa estratégia, com uma boa execução, pode não resolver nada, se incertezas não forem devidamente mapeadas e tratadas.

Essa questão também envolve os conselhos fiscais?

Os conselheiros fiscais, que no processo de governança poderiam ser o contraponto na melhoria do processo de gerenciamento de riscos, analisando-o e criticando-o, também frequentemente não reconhecem sua importância e nem buscam o entendimento do método de aplicação.

Aliás, é muito frequente conselheiros fiscais se aterem a indicadores econômico-financeiros e a operações aleatórias e não se preocuparem com os atos administrativos de forma mais sistêmica. Ou seja, com as decisões do conselho de administração, como, por exemplo, a formulação do planejamento estratégico e a sua execução, planejamento orçamentário, gestão de RH, planos de expansão e gerenciamento de riscos, logicamente.

Assim, o conselho de administração perde um bom interlocutor que poderia contribuir de forma muito contundente para a melhoria dos processos de administração e gestão e, entre eles, a identificação, avaliação e tratamento de riscos.

Falando especificamente nas cooperativas de crédito, como fica essa questão?

No caso das cooperativas financeiras, a Resolução 4.434/2015, do Banco Central, no inciso 1ª do artigo 31, deixa clara a maior amplitude do trabalho do conselho fiscal, inclusive pela ação individual: “fiscalizar, por qualquer de seus membros, os atos dos administradores e verificar o cumprimento dos seus deveres legais e estatutários”.

Não podem, assim, os conselheiros fiscais se furtarem de analisar, criticar e colaborar no processo de gerenciamento de riscos. A importância da gestão integrada de riscos é total, mas, não menos importante, representa também um grande desafio para as estruturas de governança.

O país vive uma grave crise econômica. Como as cooperativas de crédito devem se posicionar, para não correr riscos desnecessários?

Sabemos que as cooperativas de crédito têm atuado efetivamente como instrumento eficaz contra a ciclicidade nos momentos de diminuição das atividades econômicas, ou seja, as cooperativas financeiras fomentam o desenvolvimento econômico quando, por crise, os bancos param de emprestar, o que é muito bom e realça o real papel de uma cooperativa.

Mas essa postura altamente benéfica ao mercado não pode redundar em flexibilização das regras da política de gerenciamento de risco de crédito, de forma a aumentar o não recebimento de operações, em função de se emprestar para quem não tem fluxo de caixa que gere condições de pagamento. Não se pode esquecer que o patrimônio da cooperativa é de todos os associados.

Aliás, a crise econômica é um bom momento para a cooperativa financeira exercitar com vigor o 5º princípio cooperativista da “educação, formação e informação” e ajudar cada associado demandante de crédito na (re)estruturação de um fluxo de caixa sustentável, diminuindo risco para o cooperado e para o patrimônio coletivo.

Portanto, em período de crise, não emprestar para cooperado que não tenha capacidade de pagamento, mas ajudar o cooperado no gerenciamento financeiro, pode ser uma boa oportunidade de gerar mais valor para a relação cooperativa e associado.

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